Bella Jozef: paixão pela América Latina

Cláudia Luna1

Associação dos Professores de Espanhol
do Estado do Rio de Janeiro (APEERJ)


Pulsa triste o coração da América Latina: morreu Bella Jozef. Parecia eterna, pela vitalidade e paixão que emanava, pela profundidade do conhecimento que produziu. Graduada em 1945, sucederá Manuel Bandeira na Cátedra de Literatura Hispano-americana da Universidade do Brasil, construindo, a partir da pedra angular que recebeu, uma luminosa catedral. Dedicou a vida inteira à cultura latino-americana, formando gerações de pesquisadores que hoje atuam em universidades de todo o país. Dentre as tantas homenagens que recebeu em 1996, ano em que completou setenta anos, constam o título de Professora Emérita da UFRJ e a Ordem de Mayo do governo argentino.

Compreendeu, como poucos, a interrelação entre texto e contexto, e o caráter indissociável entre teoria, história e crítica literária. Em sua História da Literatura Hispano-americana (2005), propõe “uma releitura crítica do acervo literário e cultural da América Hispânica, como questionamento dos suportes de sua construção histórica”. Em livros como O espaço reconquistado (1993) e A máscara e o enigma (2006), debruça-se sobre a produção literária da modernidade latino-americana, buscando “diálogos entre a teoria crítica e a produtividade literária, fundamentais na constituição de uma literatura e uma cultura que se quer própria”. Trata-se, no campo da literatura, de assinalar a “diferença e o que acrescentou de próprio em seu discurso”, contribuindo para a autonomia intelectual do continente.

Transitou por vários gêneros, aliando a produção à reflexão crítica, e efetuando a ponte entre universidade e vida social. Em seus artigos para jornais de grande circulação, refletia sobre as novíssimas vertentes desta literatura. Foi mediadora de uma plêiade de intelectuais e escritores. Em Diálogos Oblíquos (1999) propõe uma teoria da entrevista. Impressionam, na obra, a objetividade e a precisão das perguntas, capazes de chegar ao cerne de cada autor. Sua paixão, entretanto, era Borges. Nos últimos anos publica um livro dedicado ao poeta e contista argentino, que conhecera pessoalmente. Interessava-lhe, em especial, o tema da memória.

Como orientanda e colega, pude testemunhar sua lide americanista e compartilhar sua paixão incondicional pela América Latina, sua confiança no papel da literatura e no compromisso do intelectual. Era exemplo de tolerância e acolhimento, adepta da pluralidade de idéias e opiniões.

Faleceu na véspera do lançamento de sua última obra, Escritos sobre García Márquez. Deixa inéditos livros inteiros, prólogos, arquivos, e uma vastíssima e preciosa biblioteca, que será doada à Universidade, conforme seu desejo. Portanto, qualquer avaliação sobre o alcance de sua contribuição intelectual será necessariamente prematura, neste momento. O certo é que precisamos honrá-la, como se devem honrar “os que produziram cultura e ampliaram o campo da liberdade do homem”, conforme ela certa vez afirmou. Eterna será, em todos os corações que pulsam pela América Latina.


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1 Professor Associado de Literatura Hispano-americana da UFRJ.

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