Elaborado por Cláudia Luna (UFRJ)

Dezembro 2013

Bella (Karacuchansky) Jozef
(1926 – 2010)

Ensaísta, crítica literária e especialista em Literaturas Latino-americanas


Nasceu em 29 de janeiro de 1926 na cidade do Rio de Janeiro, Distrito Federal. Em 1945 formou-se em Letras Neolatinas pela Universidade do Brasil, e logo se tornou Assistente de Manuel Bandeira, na Cátedra de Literaturas Hispano-americanas da Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1956, quando o poeta modernista se aposentou, Bella Jozef assumiu a responsabilidade pelo ensino de literatura-hispano-americana.  Nesse mesmo ano se doutorou em Literatura Americana com a tese “María, de Jorge Isaacs e o romance hispano-americano”. Em 1957 obteve o título de Livre-docente. Dedicou toda a sua vida, quase um século, a difundir a literatura hispano-americana em diversas esferas. Intelectual incansável, atuou em várias frentes, sempre fiel a seu compromisso latino-americanista e ao princípio de que “a função crítica é social, essencialmente inconformista” (2005, p. 188), especialmente em nossas sociedades latino-americanas.

Sua trajetória acadêmica se confunde com a da UFRJ. Dos noventa anos da instituição, criada em 1920, acompanhou por quase sete décadas o desenvolvimento da pesquisa e do saber científico, contribuindo de forma relevante para sua consolidação, como Coordenadora da Pós-graduação e membro do Conselho Editorial da Universidade, entre outras funções. No meio acadêmico, como docente e orientadora, formou muitas gerações de Mestres e Doutores, que se espalham hoje por todo o país, de Norte a Sul, dedicados ao ensino e à pesquisa em Literatura Hispano-americana.  Aprovada em Concurso para Professor Titular, foi responsável pela criação do Setor de Literaturas Hispano-americanas, cuja equipe coordenou por muitos anos. Era pesquisadora do CNPQ e ao longo de décadas, à frente do SEPEHA, Seminário Permanente de Estudos Hispano-americanos, promoveu a vinda de escritores e intelectuais de toda a América Hispânica, em parceria com Embaixadas, Consulados e Casas de Cultura. Fundou a Cátedra Alfonso Reyes, de intercâmbio Brasil-México. Ao completar 70 anos, em 1996, recebeu o título de Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Em 1988 fundou a revista América Hispânica, periódico onde circularam artigos dos mais importantes intelectuais da América Latina, por dezessete anos. Em seu Conselho Editorial contava com alguns dos maiores expoentes do Latino-americanismo, como Antonio Cornejo Polar, Julio Ortega, Ruben Vela, Moacyr Scliar e Paul Verdevoye. Espaço de discussão teórica e crítica literária, dedicou alguns de seus números a Jorge Luís Borges, Carlos Fuentes, Juan Carlos Onnetti; fez dossiês sobre literatura argentina, chilena e mexicana, entre outros. Foi também espaço importante de divulgação da produção científica de jovens mestres e doutores, sempre a partir do crivo da seleção rigorosa.

Ultrapassando os muros da universidade e da vida acadêmica participou ativamente dos círculos intelectuais e de cultura. Dirigiu um programa cultural na Rádio Roquette Pinto, a primeira emissora de rádio do país, onde pôde receber expoentes da vida literária, como o equatoriano Jorge Carrera Andrade. Foi entrevistadora do projeto FINEP: “Os escritores: criador e criaturas”. Durante décadas publicou artigos e resenhas críticas em suplementos literários de diários de grande circulação, como Suplemento Literário do Minas Gerais, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Estado de São Paulo e O Globo, entre outros. A partir de suas resenhas e textos críticos orientou o público leitor na transição da narrativa tradicional para a nova narrativa hispano-americana a partir dos anos cinquenta do século vinte, no fenômeno editorial que ficou conhecido como o “boom”. De García Márquez a Vargas Llosa, Ricardo Piglia a Manuel Scorza, acompanhou o périplo e os desafios da intelectualidade a partir dos anos sessenta, os longos debates sobre o papel do intelectual e formas possíveis de resistência ao autoritarismo. Desenvolveu instrumentos teóricos para a plena compreensão das novas técnicas narrativas, acompanhando as transformações na crítica e na historiografia literária nos séculos vinte e começos do vinte e um através de sua vasta produção bibliográfica, em livros e artigos científicos.

Como tantos intelectuais latino-americanos, contribuiu para o intercâmbio e o diálogo cultural entre os países do continente. Em parceria com embaixadas e consulados, promoveu a vinda de escritores e estudiosos, fortaleceu laços, construiu pontes. Em parceria com o Consulado da Argentina, em especial com a escritora May Lorenzo Alcálá e Marcelo Fonrouge, trouxe ao Brasil as escritoras Alicia Steimberg e Marta Robles. Do México trouxe Beatriz Espejo. Seu lado feminista se explicitava nos estudos sobre erotismo e literatura, no acompanhamento da obra de Dinah Silveira de Queiroz, Clarice Lispector, Nélida Piñon, Rosario Castelhanos, Helena Parente Cunha.

Transitou por diversos gêneros, aliando a produção à reflexão crítica. No volume Diálogos Oblíquos apresenta uma Teoria da entrevista, a partir da seleção de diálogos  que travou, no Brasil e no exterior, com expoentes das letras hispano-americanas. Dentre eles, Jorge Luís Borges e Ernesto Sábato, em Buenos Aires; Cabrera Infante, em Londres; José Donoso, em Nova Iorque. Recebeu Juan Rulfo, Carlos Fuentes e Vargas Llosa, no Rio de Janeiro. Frequentava as sessões de cinema na casa de Manuel Puig.

A contrapartida também foi relevante: ao longo das décadas cruzou os céus do continente, difundindo a literatura brasileira junto aos hispano-americanos, através de cursos, conferências e livros; ajudando a revelar novos talentos literários, através dos Concursos de cujo jurado participava, como o da Casa de Las Américas.  Foi vice-presidente do Instituto Internacional de Literatura Ibero-americana Representou o Brasil, a convite do Ministério da Cultura, nas Feiras Internacionais do Livro de Guadalajara e de Bogotá. Como reconhecimento internacional por seu trabalho incansável na difusão da cultura e na integração latino-americana, foi condecorada com a Ordem de Maio do governo argentino; com a Ordem do Sol, do governo peruano, e com as Palmas Acadêmicas do governo francês.

Sabia adequar suas exposições a qualquer tipo de público, tanto em espaços solenes como em despretensiosos cursos de extensão em sala de aula, despertando a curiosidade de jovens estudantes para a literatura de nossos países vizinhos, direcionando vocações, incentivando novos talentos, disseminando a paixão pela América Latina. Elegante e generosa, tinha sempre uma palavra de estímulo e encorajamento às novas gerações.

Foi casada por mais de sessenta anos com George Josef e teve dois filhos. Faleceu em 10 de novembro de 2010, no bairro do Catete (Rio de Janeiro), onde morava com o marido, na véspera do lançamento de seu livro Escritos sobre García Marquez. Deixou inéditos livros inteiros, prólogos, epistolário, poemas e uma vastíssima e preciosa biblioteca que foi doada à Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Prêmios e distinções: “Silvio Romero” e “Assis Chateaubriand” da Academia Brasileira de Letras (1978), “Ensaio Bibliográfico” da Organização dos Estados Americanos, Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte, “Personalidade Cultural do ano” da União Brasileira de Escritores (1982) e uma das “Dez mulheres do ano”, pelo Conselho Nacional de Mulheres. Era Membro efetivo fundador do Instituto Brasileiro-Peruano Marechal Ramon Castilla (1989). Condecorada com as Palmas Acadêmicas do Governo Francês (1995), com a Ordem de Mayo do Governo Argentino, e a Ordem do Sol, do governo peruano. Agraciada com o título de Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996) e com a Medalha Pedro Ernesto, da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Fundadora e diretora da Associação de Professores de Espanhol do Rio de Janeiro (APEERJ) por várias gestões, recebeu o título de Presidente de Honra, em 2008.  

Escreveu as seguintes obras, dentre outras: Historia da Literatura Hispano-americana. 4. ed. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ/ Francisco Alves, 2005./ Historia de la literatura hispano-americana. 2. ed. Guadalajara, México, 2005;  A máscara e o enigma. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986; Diálogos oblíquos: 34 escritores falam de literatura latino-americana. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1999; Romance Hispano-americano. Rio de Janeiro: Ática, 1986; O espaço reconquistado: uma releitura. 2. ed.. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1993 / El espacio reconquistado. Valladolid: Universitas Castellae, 1999; Temas Hispano-americanos (1969); Antologia de Poesia argentina (1940-1969), Iluminuras, 1990; Antologia General de la Literatura Brasileña, México, Fondo de Cultura Económica, 1995; Escritos sobre Gabriel García Márquez (organização), Rio de Janeiro: UFRJ, 2010 (Série Laboratório Latino-americano, 3).

Fontes: HOLLANDA, Heloisa Buarque & ARAÚJO, Lucia Nascimento. Ensaístas Brasileiras. Mulheres que escreveram sobre literatura e artes de 1860 a 1991. Rio de Janeiro, Rocco, 1993;  UFRJ 90 ANOS (1920-2010). Rio de Janeiro: UFRJ, 2010. Edição comemorativa; LUNA, Cláudia. “Bella Jozef: paixão pela América Latina” in Versus, ano II, nº 6, Rio de Janeiro, junho de 2011, p. 110. Site www.bellajozef.com, acessado em novembro de 2013; Currículo Lattes, www.cnpq.br, acessado em  novembro de 2013; Revista América Hispânica. Rio de Janeiro: SEPEHA. 17 números.


Elaborado por Cláudia Luna (UFRJ)

Dezembro 2013

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